Jornal O Dia
13/05/2012, Rio
O deputado vai tentar provar que o trio Paes-Cabral-Dilma não resolve tudo no Rio de Janeiro
Por Rozane Monteiro
Rio - Pré-candidato à Prefeitura do Rio, o deputado federal Otavio Leite
(PSDB), 50 anos, confia no perfil juscelinista para chegar ao 2º turno
na corrida ao Palácio da Cidade. Afilhado do ex-presidente da República,
ele aposta que pode fazer ‘40 anos em 4’. Protegido por uma cinta, por
conta das dores que ainda sente depois de um acidente de carro em abril,
o tucano, em entrevista concedida segunda-feira (7), disse que usaria
no programa eleitoral fotos da viagem do governador do Rio, Sérgio
Cabral (PMDB), à França, em 2009, ao lado de Fernando Cavendish, então
chefão da Delta, que tem negócios com o estado. Para ele, o escândalo
também atinge o prefeito Eduardo Paes, da base aliada.
ODIA: O senhor nasceu em Sergipe há 50 anos. Como veio parar no Rio?
OTAVIO LEITE: – Sou de Aracaju, de uma família tradicional. Meu avô
foi senador, meu pai foi deputado. Era muito comum as famílias mandarem
estudar fora. Fui criado pelo meu avô (paterno). Me mudei há 48 anos, lá
se vai uma estrada de conhecimento. Moro na Barra da Tijuca, mas a
minha alma é o cosmopolitismo de Copacabana, onde eu fui criado. A minha
formação política se dá muito em movimentos populares, acompanhando os
movimentos sociais no tempo de Marcello Alencar prefeito, eu garoto,
rodando a Zona Oeste. Fui coordenador das regiões administrativas, isso
me deu oportunidade de mergulhar nos problemas da cidade. Ali foi a
grande oportunidade para conhecer de fato o Rio. Minha formação veio do
PDT. O Brizola era um líder. Nessa árvore genealógica da política do Rio
de Janeiro, o genoma Brizola é muito forte. Tem que se reconhecer isso.
Que alianças o senhor vai buscar na disputa pela Prefeitura do Rio? De quem o senhor não aceitaria apoio de jeito nenhum?
Eu não terei qualquer dificuldade de assimilar o apoio de todos os
que estão no campo de oposição no segundo turno. Essas decisões serão
evidentemente precedidas de uma pública especificação de uma plataforma:
por que estarão me apoiando, para defender o que, para lutar por isso
ou por aquilo, para, portanto, desenvolver um programa específico.
Então, eu não tenho essa insegurança, porque o comando do governo será
nosso.
Então, não tem ninguém de quem o senhor recusaria apoio?
Não, de jeito nenhum. Venham todos.
E o fator Aspásia Camargo, deputada estadual do PV, que já foi
apontada como candidata em potencial a sua vice, mas que colocou a
pré-campanha à prefeitura na rua?
Olha, Aspásia... É minha amiga pessoal. Prosseguimos conversando. Ponto.
Qual é o prazo limite para definir o seu vice?
A lei permite que seja até 30 de junho. Então, eu não estou com
pressa. Não estou nem um pouco ansioso. Há muito tempo ainda pela
frente.
Pode ser do PSDB?
Vamos aguardar tempo e placar...
Vai depender de pesquisa que o senhor já está fazendo ou pretende fazer?
Nós não estamos fazendo pesquisa. Ver a dos adversários é mais
barato. São pesquisas que rolam por aí, estão nos corredores da Alerj,
do Congresso Nacional... Nesse instante, não há necessidade de pesquisa.
Um pouco mais adiante, em junho, é necessário fazer uma pesquisa para
sentir eixos de campanha que a gente pretende adotar como linhas mestras
de trabalho, para dar uma situada. Eu vou à televisão agora no final do
mês, no programa eleitoral, e aí, eu vou entrar em campo. Depois dessa
propaganda eleitoral, eu, oficialmente, estou em campo.
O senhor tem três minutos de TV. Se juntar com o PV, vai para quanto?
Três minutos e 40. Com três dá um samba.
Então o senhor não precisa do PV?
O gigantismo às vezes é problema. Com os três minutos, eu vou
adiante, três minutos significam um tempo bem razoável, dá para
trabalhar. É só aumentar a taxa de criatividade.
Como o senhor vai usar as redes sociais para resolver o problema da falta de tempo na TV?
Vamos fazer uma mobilização da juventude do partido, de vários
segmentos próximos a mim. O tempo dedicado — eu pessoalmente — ao
Facebook tem que aumentar. Mas a questão é menos quantidade e mais
qualidade. Tenho que ter cuidado para não derrapar. As redes sociais são
o que vai permitir mais democratização do processo.
E a vereadora Andréa Gouvêa Vieira (do PSDB, que declarou que não vai votar no senhor e vai apoiar Marcelo Freixo, do PSOL)?
Andréa Gouvêa é tão somente uma página virada. Ponto.Ela anunciou que
se licenciará (do partido) e ponto final. É uma página virada. Nada
mais que isso. Meu nome foi referendado pelo diretório municipal, pelo
diretório estadual e por unanimidade pelo diretório nacional.
Ela é a vereadora mais atuante do partido hoje no Rio. O senhor acha
que pode passar pela cabeça do eleitor: “Ele não consegue convencer a
companheira do partido, como é que vai convencer o eleitor?”
Não é questão de convencer ou não convencer. É uma questão de
respeitar uma decisão interna do partido. Agora, isso é uma novidade?
Não, não é novidade. Ela sequer fez a campanha do Serra para presidente
da República. Achou que estava errada a aliança que fez, etc, e ponto
final. Tomou uma decisão. É decisão dela. Paciência. Ela é uma página
virada. Não passa de uma página virada.
O senhor está convencido de que o prefeito Eduardo Paes vai para o segundo turno?
Acho que esse segundo turno vai acontecer e, no mano a mano com ele,
vai ser muito interessante. Ele vai e eu vou para o segundo turno contra
ele.
Uma das bandeiras do prefeito é a harmonia com o governador Sérgio
Cabral (PMDB) e a presidenta Dilma Rousseff (PT). Quando o senhor se
coloca como oposição não corre o risco de assustar o eleitor, que pode
pensar que alguma obra pode parar, por exemplo?
Em primeiro lugar, eu, eleito prefeito, não terei qualquer
dificuldade de diálogo com o governador nem com a presidenta. Agora,
essa verdade absoluta, de que os três juntos é que resolvem, nós vamos
desmistificar. Pelo menos em dois setores da administração pública essa
unidade não trouxe os benefícios que, em tese, poderia ter apresentado
para o Rio de Janeiro. Na saúde e no transporte é cada um por si e Deus
por todos. Então, é uma farsa essa discussão de que essa unidade salva o
Rio. Não. E tem mais, a tão festejada vitória das Olimpíadas não é um
fato de agora, é um processo que vem desde 1997, quando Fernando
Henrique criou pela primeira vez um grupo específico para trabalhar a
candidatura do Rio. Então, as Olimpíadas não são uma vitória deste
governo. É uma vitória de vários que contribuíram, inclusive deste
governo. Então, não é essa unidade que assegura tudo.
Que projeto do prefeito o senhor alteraria?
O primeiro ato nosso vai ser alterar o contrato do Porto Maravilha
para impedir a derrubada da Perimetral. Um bilhão e meio de reais,
aproximadamente, de recursos — aliás, financiados pelo FGTS, que se
presta à casa própria — para derrubar viaduto? Não faz o menor sentido.
Isso aí é um delírio. Uma solução viária discutível. A manutenção do
Elevado não afeta em nada o programa Porto Maravilha. Eu não tenho nada
contra readensar aquela área do ponto de vista empresarial, comercial e
etc. Agora, é evidente que não faz sentido derrubar aquele viaduto para
colocar um engarrafamento que já existe de um quilômetro e meio no
subsolo, numa área que tem um lençol freático à flor da pele, que é uma
área aterrada. Eu estudei tudo sobre aquilo ali. Esse bem é da União.
Não há uma autorização legal para a prefeitura derrubar. Logo, o
prefeito não pode derrubar o que não é dele.
Que outra medida imediata o senhor tomaria?
O outro ponto vai ser chamar as instituições de pessoas com
deficiência e duplicar os repasses que recebem hoje porque nesse campo a
prefeitura é de uma insensibilidade atroz. Nós vamos criar um programa
de atendimento a pessoas com deficiência, ponto a ponto, através de vans
adaptadas. A proposta é criar um serviço específico para atender o
deficiente no seu deslocamento, buscá-lo praticamente em casa.
Quais seus planos para o servidor?
Acabar com a farra do consignado. Tem que fazer uma licitação: ganha
quem oferecer menos taxa de juros para a recomposição das dívidas. O
servidor está atolado em dívidas por conta do sonho do consignado.
Enquanto o País diminui taxas de juros, não houve uma diminuição do
consignado no Rio. A outra proposta nossa para os servidores é criar um
modelo de recuperação salarial, que tem sempre que se dar quando
aumentar a arrecadação.
O que o senhor diz sobre a aproximação de Paulo Henrique, filho de Fernando Henrique Cardoso, à campanha do Freixo?
(Risos) Ai, ai... (Suspiro). Em relação aos Cardoso, o que me importa é o Fernando...
Ele estará na campanha?
Lógico que vai estar. Todos os tucanos vão estar. O Aécio (Neves), o (Geraldo) Alckmin, o (José) Serra.
O José Serra ajuda ou atrapalha?
O Serra é um grande quadro na política, teve votação significativa para presidente, ele ajuda.
O que o Aécio se propõe a fazer para lhe ajudar? Ele virá sempre ao Rio?
Ele vai gravar programas, eventualmente participar de alguns eventos, etc e tal. E vai pedir o voto...(risos)
O Aécio vem morar no Rio?
(Risos) Ele vai pedir voto aos conterrâneos... Mineiros e cariocas... Ele é um somatório de ambos, né?
De qual empresa o senhor não aceitaria doação de campanha?
De qualquer uma que tenha sido condenada (pela Justiça) ou seja
objeto de CPI ou que tenha sido decretada inidônea pelo Poder Público.
O senhor vai divulgar os nomes de seus doadores?
Vai ser absolutamente aberto. Quem quiser me apoiar que venha me
apoiar. Agora.... sem toma lá, dá cá. Eu espero que o partido me apoie!
Existe alguma dúvida em relação ao apoio do PSDB nacional?
Não, mas porque existe muita gente em cima deles (da direção
nacional), atrás de apoio também. Tem muito candidato, mais de mil
candidatos a prefeito.
O debate nacional travado entre PSDB e PT será usado em sua campanha?
Eu acho o governo Dilma muito ruim. Ministros, e não foram poucos, caíram por fraude. E os escândalos não param.
O que o senhor acha das fotos divulgadas do governador do Rio, Sérgio
Cabral, e de seu secretariado na Europa, ao lado do então dono da
Delta, Fernando Cavendish?
Acho que houve uma indiscutível simbiose entre o público e o privado.
Não sou membro da CPI, mas solicitei o requerimento de apresentação do
Cabral (na CPI).
Como o senhor acha que isso afeta a reeleição do Eduardo Paes no Rio?
Queria lembrar que a Delta é a empresa que mais obras tem no PAC.
Acho que a CPI tem que apurar tudo, doa a quem doer. A relação de
contradição entre PT e PSDB é explícita. Também é bom lembrar que o PT é
Eduardo (Paes) e que Eduardo é PT.
O senhor acha que o Cabral vai ser convocado?
Se a CPI quebrar o sigilo da Delta, eu não tenho dúvidas de que a convocação (do governador) será inevitável.
Se a campanha começasse amanhã, o senhor divulgaria as fotos do governador em seu programa?
(Pausa) Se eu colocaria aquelas fotos? (Pausa) Eu conversaria com os
companheiros de partido e com a coordenação de campanha. Mas é evidente
que seria excelente ilustração para explicar o que não pode ser uma
relação entre um prestador de serviço e o poder público.
O senhor acha que o PMDB está blindando o Cabral para ele não depor na CPI?
Nooossa. Foi uma operação de abafa no Senado. E ele.... pá..... ficou quieto.
Por que o ex-presidente Juscelino Kubitschek batizou o senhor?
O meu pai era juscelinista e mandou uma carta para o JK. Não tinha
proximidade nenhuma. E aí, eu esperei um ano e meio para ser batizado.
Quis o destino que eu conhecesse a Maristela (filha de JK) e aí fui
conhecendo mais o JK.
Se o senhor pudesse, o elegeria presidente de novo?
Sim. Porque ele queria ver o País para frente. Era tolerante, era
democrata. E o que eu pretendo, parodiando JK, é fazer 40 anos em
quatro, em prol dos deficientes do Rio de Janeiro. Essa relação para mim
é uma fonte de inspiração para agir na área pública.
Em que político brasileiro o senhor não votaria de jeito nenhum?
(Pausa) Em qualquer um que tenha sido condenado por improbidade administrativa.
E no Collor?
De jeito nenhum.
O senhor jura que não vai, mesmo, nos dizer quem será seu vice?
Não. Ainda estamos em conversação.
Foto: João Laet / Agência O Dia
